
O tempo
Linney Jeanne Palma
O que sei
das horas
que correm loucas
devorando o meu destino
de mulher?
Não tive tempo
de olhar no espelho
mal tive tempo
de vestir a roupa
e o dia passou
sem que eu sorrisse
e ainda preciso
encontrar os sonhos.
Fragmentos
Linney Jeanne Palma
Fragmentos do passado
são mistérios
que a noite
procura desvendar:
juntar pedaços,
formar desenhos,
decifrar.
Vida,
pesar.
A Rua Por Onde Passo
Linney Jeanne Palma
A rua por onde passo
todos os dias
já me conhece.
Sabe dos meus cacoetes
(às vezes cantarolo baixinho
em leve desatino)
sabe a cor
dos meus sapatos
(e onde eles me apertam)
tem a medida
dos meus passos
do peso
das minhas sacolas
e entende as razões
pelas quais
desfilo minha tristeza.
Meus Mortos
Linney Jeanne Palma
Às vezes,
parece que vejo
meus mortos
em alguma
desconhecida rua,
andando distraída;
ou refletidos cativos,
numa vitrina;
ou numa janela,
atrás de uma cortina
a voejar...
Vejo-os
num canto
de uma casa vazia,
ou num jardim,
escondidos...
Às vezes,
suas vozes
parecem murmurar
dentro de mim
seus nomes ausentes...
É aí que vem
esta saudade
pungente
que teima
em não me deixar...
Reviro
a minha memória
andarilha
e eles voltam,
como parte
de uma história
insepulta
que eu gosto de lembrar.
Incerteza
Linney Jeanne Palma
Aflige
a incerteza!
desconhecer
teus planos
silenciosos,
impenetráveis,
em incansáveis
dias de espera,
em devaneios
aflitos;
sem saber
aonde vai dar
este caminho
e aceitar
resignada
os dias.
Meus Olhos
Linney Jeanne Palma
A menina
tinha os meus olhos.
Não estes
que tenho agora,
mas os que eu tinha
quando ainda
não havia deixado
ninguém para trás;
nem enterrado
meus mortos,
nem feito
as mudanças que fiz,
nem andado
por infinitas ruas
à procura de endereços,
nem visto
tantos sorrisos amarelos.
Aqueles olhos
eram os da menina
que ficou no meu passado...
Campo-Santo
Linney Jeanne Palma
Onde os mortos
deitam seus corpos,
um pássaro canta,
uma flor desabrocha,
um homem ascende uma vela.
O Sol
deita cruzes
de sombras no chão
e aquece
o corpo da mulher
que faz uma prece.
O Inverno
Linney Jeanne Palma
O inverno chegou
como um namorado
que vem
de uma longa viagem.
Eu esperava ansiosa
com os cobertores
perfumados
e a mesa posta
com chocolate quente.
Fechei a janela,
acendi a lareira,
peguei meu livro favorito,
e como uma gueixa
fiquei bonita,
num pijama
de flores azuis.
Deixa-me quieta
Linney Jeanne Palma
Deixa-me quieta
que eu preciso de mim,
da minha dor suave
que em tantos
não dói.
Deixa-me
com os meus pensamentos
que fazem vozes
calmas e iguais.
Deixa-me
no silêncio,
na penumbra,
para que eu possa
depois de tudo
e apesar de tudo
voltar...
Andarilho
Linney Jeanne Palma
Carregas a solidão
por esta estrada sem fim,
alheio às paisagens
que deixas para trás...
Pisas nas pequenas flores
da beira do asfalto
e nem te deténs
para ve-las.
Aonde vais,
que levas a tua vida
nos ombros,
sem que ninguém
perceba que tu passas?
Quantos mundos
foram os teus?
Quantas vidas
perderam-se de ti?
Andarilho...
para onde
te levam
os teus passos ?
Fantasmas Interiores
Linney Jeanne Palma
Cruzamos
com nossos
fantasmas interiores
dia-a-dia:
uns
nos apontam o dedo,
outros
vêm cumprimentar-nos.
Seus rostos,
espectros,
nos examinam
atentos:
Somos reféns.
Entre erros e acertos,
vivemos.
Remédios
Linney Jeanne Palma
Andei doente!
De tempos,em tempos,
fico assim:
o corpo abatido,
a alma febril;
um absurdo!
quase morro de mim.
Mas com uns poucos remédios:
uma poesia,
um livro,
uma obra de arte,
uma bela paisagem
(amor à parte),
fico assim:
só alegria!
O Lago
(ao lago Guaíba)
Linney Jeanne Palma
Este lago
que me namora,
deixa que eu o admire
e empresta-me
belas paisagens.
Concede-me
com generosidade,
um pouco dos seus instantes.
Apaixonada
eu o contemplo...
A Catedral
Linney Jeanne Palma
O homem
na catedral
o espírito elevado
transpassado
pelas luzes coloridas
dos vitrais
o pensamento
a bordar
colunas góticas
o frio da paz
o cheiro do guardado
o mistério dos santos
a cruz dos dias
a luz vermelha ao fundo
(o Divino)
a solidão da catedral.
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